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Edilson

Texto produzido como trabalho final para a disciplina Seminários de Pesquisa do Programa de Mestrado em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)




"Edilson Alves da Costa Júnior, jovem negro e LGBT, estudou no CEFET/RJ entre 2011 e 2013, participando ativamente de seu Grêmio Estudantil. Foi assassinado pelo Estado brasileiro aos 25 anos, junto de outras 500 mil pessoas, através da COVID 19. Quando Edilson se foi, a vacina contra a doença já existia há 172 dias e já estava presente no Brasil há 132 dias, mas não chegou até ele. Sua memória ficará marcada aqui clamando por justiça.


Edilson presente!"


Estava chovendo, então a nossa segunda maior preocupação era que o molde de papel se danificasse, a primeira era que algum policial aparecesse enquanto pichávamos o muro da escola em que havíamos estudado quase dez anos antes, gravando em tinta preta o desenho e as palavras que eu havia talhado com um estilete e uma tesoura ao longo de semanas. A chuva, por outro lado, teve um efeito muito positivo de manter a rua vazia, mesmo sendo hora do rush, eu ainda estava com minhas roupas do trabalho (àquela altura completamente ensopadas) e minha amiga se dividia entre segurar o molde contra a parede e verificar os poucos transeuntes que surgiam. Deve ter levado menos de dois minutos, recolhemos as coisas e saímos andando, tentando não parecer suspeitos enquanto ela ria do meu nervosismo e das minhas mãos sujas de tinta, eu era completamente inexperiente em pichar muro. Saímos de lá sem conseguir verificar bem o resultado, mas quando passei novamente alguns dias depois pude comprovar que o projeto deu certo apenas parcialmente, o desenho havia ficado bem gravado, mas o texto não, a água da chuva borrou as letras tornando-o ilegível. Ainda assim pude tirar uma fotografia e publicar nas redes sociais, o que causou a comoção transgeracional que eu pretendia entre as pessoas que viveram aquela escola de alguma forma, seja como estudante, como professor, como funcionário ou como vizinho, entre as pessoas que foram próximas de Edilson em algum momento da vida e, de uma maneira ampla, entre os que experienciaram a suspensão brutal daquilo que conhecíamos como normalidade pela pandemia de COVID-19.


Edilson foi um dos meus amigos mais próximos durante o ensino médio e não coincidentemente uma pessoa com a qual minha geração dividiu um momento muito importante de formação de consciência política. Digo que não foi coincidência porque ter estudado em um colégio federal com milhares de alunos entre 2011 e 2013 foi um fator decisivo para minha formação e nesse ambiente que eu, Edilson e várias outras pessoas nos tornamos amigos, fomos primeiramente companheiros de militância no Grêmio Estudantil. Naquela época, eu conheci um rapaz de temperamento explosivo, mas não violento, uma pessoa profundamente verdadeira, cujo senso de lealdade levava a comprar brigas pelos amigos e companheiros de Grêmio, isso que não era apenas uma prática política em um sentido raso, mas uma prática de vida, uma política de afetos que terminava por afetar a vida política daquela organização estudantil. Na última vez em que falei com Edilson, por videochamada, ele estava concluindo a graduação em administração pela UNB e planejando se mudar de volta para o Rio de Janeiro, era abril de 2021 e ainda não havia recebido seu diagnóstico de COVID. Este chegou poucas semanas depois, em cinco de maio ele foi internado com toda a família e no dia trinta e um daquele mês Edilson foi o único a não receber alta, faleceu cento e setenta e dois dias depois da produção da primeira vacina para COVID-19 no mundo e cento e trinta e dois dias dias depois da aplicação da primeira vacina no Brasil.


Partiu de mim a ideia do stencil, recentemente li uma entrevista do coletivo de anti-arte [conjunto vazio] no qual eles clamam “Artistas do mundo todo, desistam" e completam “Para nós abolir o trabalho, o capitalismo, o tédio e a arte são um e o mesmo projeto” (ALBUQUERQUE, 2017). Estive por vários anos empenhado em construir uma carreira como artista até me perceber ansiando por construir os meios para minha desistência, pois essa ideia de desistir da arte só pôde ganhar algum sentido depois do stencil. Que eu construísse um portfólio de pinturas, ilustrações, esculturas e procurasse lugares novos para expor, compradores, buscasse uma coerência do meu trabalho, pode não parecer, mas o produzir artístico se torna um trabalho mecânico como qualquer outro. Acredito que seja essa a noção de tédio, trabalho e capitalismo que o [conjunto vazio] acusa, onde a arte se confunde em natureza, e talvez eu só tenha conseguido compreender do que isso se trata quando tive um pequeno vislumbre de uma produção que escapa a essa lógica, pois escapa também a mim, e justamente por isso ela me conduz a escapar de mim mesmo, não como uma fuga da realidade, mas como uma fuga à categoria de indivíduo. Pois esse stencil sobre Edilson jamais entrará em qualquer portfólio, ele não é assinado e muito menos eu me tornei um street-artist ao fazê-lo. Ele não é meu e eu me recuso a chamar aqueles desenho e texto de arte. E graças ao stencil, que um representante da atual gestão do Grêmio Estudantil do CEFET perguntou se nós, amigos do Edilson, estaríamos dispostos a fazer uma homenagem a ele dentro da instituição, deixando tábuas de madeira com desenhos e dizeres pintados e flores, quase como um segundo velório de um amigo do qual não pudemos nos despedir.


É sobre esse episódio em duas etapas que eu gostaria de falar aqui, a primeira etapa foi gravar no muro da escola e a segunda será a realização de um evento de memória. Esse é um episódio de produção de um novo espaço público, ainda que temporário, que grava em ação de vandalismo um novo lugar de memória no bairro do Maracanã, é um caso de plasticidade afetiva no qual luto, revolta, saudade e mesmo alegria têm seus circuitos reorganizados quando são mobilizados diferentes pontos de partida e de chegada, objetos de mobilização afetiva, como a pandemia, o governo Bolsonaro, as memórias da escola e a morte de Edilson, e, por fim, é um caso de memória social pois essa reestruturação dos sujeitos e lugares que se deixaram afetar resulta na produção de uma memória militante, memória de uma pessoa e de uma catástrofe que não poderão ser esquecidos.


Quando discutimos os traumas, pensamos sempre em termos de um depois, Huyssen escreve sobre a obsessão pela memória localizado na virada do século XX para o XXI, Nora sobre os lugares de memória entre os anos 1980 e 1990, ambos em sociedades da Europa Ocidental nas quais os grandes traumas históricos já pareciam distantes àquela altura (HUYSSEN, 2000) (NORA, 1993). Vêem países se esforçando para construir uma identidade própria e buscando maneiras de construir seus marcos fundadores na memória coletiva, vêem cidadãos obcecados com a história ou com o retrô porque talvez o presente não oferecesse âncoras suficientemente sólidas para suas identidades culturais, em todos esses casos, os traumas estão distantes, o Holocausto já havia se encerrado há mais de meio século, as ditaduras já haviam caído e o que se buscava era uma maneira de entendê-los, de assimilá-los e de incorporá-los às narrativas nacionais. Huyssen em especial discute se ainda seria possível construir memórias coletivas consensuais, tal como Halbwachs propõe. Ambos os autores são bem sucedidos em produzir um pensamento muito rico, mas não consigo deixar de achar que são frutos de um certo tédio social, de uma época que sente que “o pior já passou” e para a qual o futuro parece uma repetição do presente, mas não do passado. Esse tédio parece ter sido expurgado a partir da crise econômica de 2008, das guinadas políticas na década que a seguiu, do fim de qualquer discurso inocente a respeito da internet (o tal grande monumento da nossa época que Huyssen via nascer) e da pandemia de COVID-19. Os traumas que antes apareciam distantes no horizonte foram puxados para a realidade imediata, vem a pergunta “o que faremos com eles?”.


Catherine Malabou, em Ontologia do Acidente, nos convida a imaginar “Um personagem irreconhecível, cujo presente não provém de nenhum passado, cujo futuro não tem porvir, uma improvisação existencial absoluta. Uma forma nascida do acidente” (MALABOU, 2014). Seu esforço é para transpor o abismo que se formou entre a psicanálise e a neurobiologia, tomando os casos extremos de pessoas que passaram a ter outra personalidade a partir de um dano no cérebro. É um texto que busca a exceção para a avaliar a regra, forçá-la ao seu ponto máximo de tensão para nos obrigar a olhá-la de fora, se estamos sujeitos a nos tornar outro ainda em vida a partir de um acidente, um outro que não experienciou nada de nossa vida anterior, então onde buscar a coerência do indivíduo? Coerência, por sinal, é uma palavra que não é dita no texto, mas que senti muito presente por baixo dele, pois a noção de indivíduo que o ocidente produziu, principalmente em sua última fase de capitalismo tardio, se baseia nessa coerência, em você ser a mesma pessoa do momento em que nasce até sua morte, sendo vestido, esculpido, maquiado pelas suas experiências e aprendizados, mas sem nunca se modificar em substância. Malabou busca no cérebro humano as respostas, ou as novas perguntas, para essa possibilidade de um sujeito se tornar outro, de ser em si uma ruptura e não mais substância, mas quando saímos da esfera do sujeito e partimos para a do coletivo, onde podemos buscar as novas perguntas? Pois essa pandemia, e digo isso sem qualquer medo de errar, nos marcou profundamente enquanto geração, enquanto país e enquanto arranjo global de nações, mas em especial o absoluto sucesso do governo brasileiro em exterminar sua própria população irá marcar para sempre a ordem social brasileira, mesmo que amanhã não se fale mais em pandemia, recalcar um demônio dessa magnitude jamais será uma tarefa bem sucedida. Ao sair dessa pandemia, teremos ainda algo a ver com o que éramos antes? Ou será que o repentino desaparecimento de seiscentas mil pessoas e um profundo curto-circuito na ordem dos afetos nos tornará outro Brasil, que pouco ou nada tem a ver com o que foi anteriormente?


Davi Kopenawa fala do esquecimento como uma presença positiva em A Queda do Céu, o esquecimento preencheu as mentes humanas, rompendo os vínculos com as forças naturais das quais nos originamos, não se trata de uma ausência, de um espaço vazio, mas de algo que preenche (ALBERT, 2019). É uma certa ideia de plasticidade explosiva a nível social, o ser se tornou outro ao romper com sua natureza original, tornou-se um outro no mesmo corpo, sem passado, tornou-se ruptura. Talvez precisemos pensar em uma nova plasticidade explosiva do corpo social, tal como Malabou pensou para corpo-órgão cérebro, imaginar esse país sem passado, que vive seu antigo corpo apenas como avatar. Um trauma inassimilável, uma identidade rompida que não mais irá se reconciliar consigo mesma. Mas há uma outra possibilidade, que já citei, a do recalque, que na verdade creio ser o maior perigo em nosso horizonte. Neste momento em que escrevo, ainda se morre aos milhares por COVID no Brasil e o discurso negacionista é ainda mais perturbador quando produzido em tempo real. O recalcamento coletivo do Holocausto, identificado por Ricoeur, contra o qual a França precisou lutar, é dividido em fases (traumatismo, recalque, retorno do recalcado, obcessão), uma série de desdobramentos na produção das memórias sociais a respeito do período da ocupação alemã e a libertação, quem fixa o olhar em um aspecto do passado (a luta pela libertação), se torna cego a outros (os crimes contra a humanidade cometidos contra judeus, ciganos e outras minorias sociais) (RICOEUR, 2000). Ricoeur percebe tipos distintos de esquecimento, o esquecimento ativo e o passivo, que, tal como Freud já percebia há mais cem anos, tudo que é recalcado volta de alguma forma.


O stencil sobre Edilson reflete esse impulso contra a ameaça de esquecimento ativo, de recalque dos anos 2020 e 2021 no Brasil, e a conta dos dias é talvez o elemento mais importante, é uma marca numérica potente, gravada no muro de uma instituição federal de ensino em uma rua de bastante movimento do bairro do Maracanã, que já logrou o convite para um segundo ato de memória dentro do prédio da instituição. Que essa memória seja construída de maneira potente, gritante e irrecalcável, como disse é uma tarefa militante e me vejo incubido dela. É através de tarefas militantes dessa natureza que eu vejo a arte, o trabalho, o capitalismo e o tédio social sendo abolidos, pois esse trabalho artístico está em outra categoria de trabalho e em outra categoria de arte a partir do momento em que ele não responde a nenhum feitor, mas o ameaça, é uma anti-produção, um vandalismo, que atravessa sujeitos, que rompe com pactos de esquecimento. Através desse anti-trabalho anti-artístico se veicula uma mensagem militante, que atravessa percepções e tira sujeitos de si, por um instante que seja, traçando linhas de fuga que os conectam às demais vítimas desse genocídio. Era isso que eu tinha em mente quando pichei aquele muro e naquele momento eu também saí de mim. Espero que ao fim não tenha sido apenas eu a pichá-lo.


Referências bibliográficas


ALBUQUERQUE, GG. "Artistas do mundo todo, desistam" — entrevista com o [conjunto vazio]. Volume Morto, 2017. Disponível em:

<https://volumemorto.com.br/conjunto-vazio-entrevista/> . Acesso em: 12/02/2022.

ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MALABOU, Catherine. Ontologia do acidente. Trad. Fernando Scheibe. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014.

HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva e memória histórica. In: Memória coletiva. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais LTDA., 1990.

HUYSSEN, A. Passados presentes, mídia, política, amnésia. In: Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2000.

NORA, P. Entre a memória e a história: a problemática dos lugares. In: Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História, PUC-SP, dez. 1993.

RICOEUR, Paul. A memoria, a historia, o esquecimento. Ed Unicamp, 2000.

SAFATLE, Vladimir. O Circuito dos Afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.



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